POEMAS SOCIAIS


Chico Poeta

ACREDITAR É PRECISO

Não importa que as flores murchem,
Importa, que depois delas outras virão
Das suas sementes
Importa regar as esperanças
Importa adubar os sonhos
Não se sonha por sonhar
Sonha-se por crer que um dia
O sonho se fará real
Vale sonhar
Principalmente quando sonhamos
Realizar os sonhos de outros





1

AFRICA

Quanto da terra ainda
Se há de tinar de vermelho
Para que se aviste o sol sem nuvens
Brancas da Europa ?
Quando a terra terá paz de acomodar
A negritude do filho sem vida
E terá carne do próprio
Pra se alimentar?
Antes houvessem viagens ainda
Que os olhos sofridos pudessem mostrar
Que a liberdade existe
Pra outros, que livres,
Vivem a escravizar
Como entender e aceitar
Que a beleza da vida que a natureza legou
Foi apenas ilusão passageira
Que a mão aventureira do branco usurpou.

2

 

Os tambores já não são linguagens,
Não cruzam espaços, com a força
dos que falam de flor,
Talvez só retratem a importância
Dos que de longe ainda trilham
Esses caminhos de dor....áfrica...
Mãe áfrica...












3

APELO

Onde é que mora Deus
Com ele quero falar
Não como se fala
Com um padre
Que vive para escutar
Quero saber por que
Fez-se tudo diferente
Quando uns sorriem na vida
Outros vivem penitente.
O sol é suave, brando
Para os que vivem a charlar
E um chicote pesado
Pra quem vive a trabalhar.





4

BUSCANDO CAMINHOS

Não vou pedir
Desculpas, dizer
Que não faço mais,
Os riscos que corro hoje
O senhor correu quando rapaz
Entendo toda preocupação
Que vocês têm
Natural, pois é a vida
De quem vocês querem bem,
É preciso entender
Que o mundo não mudou,
As “Minas”, são os mesmo
“Brotos” que um dia
você namorou.
Você foi da “Jovem Guarda”,
Sou geração “Coca cola”,
Desde o tempo do Vovô
O Mundo é a mesma bola,

5

 

Muda a turma, os professores
E a vida é a mesma escola.
Diz pra Mãe que mando
Um beijo, pra ela não se preocupar
Sei que daqui há alguns anos
Vou estar no seu lugar.
..................................
Filha, não quero desculpas
Só quero a escuta do teu coração.
Olha esse mundo correu tão
Depressa, que ás vezes me pego
Sem nenhuma noção.
Uma coisa apenas a vida
Todinha tentei te fazer entender
Que a única coisa que não quero
No mundo, é ver você sofrer.
Eu sei das curvas da estrada,

6

 

De todas ciladas
Que fazem doer, sei também,
Que te julgas capaz, que a força
Da tua juventude te faz tudo vencer.
Mas olha, eu sei que a vida é tua,
É teu o mundo, e, que um dia
De você com amor e carinho
Alguém vai nascer, então você terá
Aprendido o verbo do amor,
Vai saber conjugar,e, talvez só aí vais
Entender o que junto de ti em vivo
A buscar.







7

CONFABULAÇÕES

Toma meus sonhos, leva-os
A qualquer lugar, enterra-os
Toma minhas ilusões, assassine-as.
Busca no precipício da realidade
Algum vestígio da serpente
E traz-me Eva.
--- que instrumento fostes Eva ?
Por que só corpos, costelas,
Porque ajudastes a construir
Esse batalhão de sentimentos incógnitos
Se possuem de ti apenas a forma, a matéria ?
__ Eu ? Que culpa tenho de haver sido apenas
Paliativo, eu tive meus sonhos, meus anseio.
Não fui eu quem condenou as gerações.
A culpa foi de quem me fez costelas
Eu queria, sonhava nascer de corações.

8

__ Coração de quem ? Do teu criador,
Do homem de barro que te deu amor ?
De que coração querias nascer, dos corações
Já mortos de tanto sofrer?
__ Não, de um sonho qualquer
Eu queria ser tudo, mas nunca mulher.
__Mas eu gostaria de ser tu Eva.
Não queria ser o monstro homem que sou,
Eu queria nascer adulto, depois retroagir,
Retroagir e morrer criança.
__ Tola inveja, leviano, encara o mundo
Não sejas descrente, a história mudou
Eu matei a serpente. Quem és, que a tantas
Perguntas me arrastas ?
De que região anti sentimental vens
A procurar respostas?

9

__ Eu ?? ...sou Sodoma, Gomorra, exílios, perseguições enfim.
Fui a praga do Egito, opositor do infinito.
Sou teu filho Caim!!!!
__ Por que te adjetivas tanto, Caim ??
__ Então não lembras que brandindo a arma
De minha doentia ira, pus termo
A existência do meu irmão Abel ?
__ chega de pagar teu erro Caim, afinal
Mudaram-se do teu tempo as formas
De julgar e de ser.
Ninguém pratica o crime sem razões.
Por coação, por insanidade, sempre há
Um motivo maior que o homem.
O pior assassino hoje, não te iludas pois,
É aquele que alimenta um sonho,
Uma esperança para desgraçadamente
Assassinar depois.
__ É pois tão simples tua dedução
Que já não te conheço mãe.
Não lamento minha forma.

10

Quem há pois de orgulhar-se, gloriar-se
Senão eu??
Meu exemplo, minha semelhança perdurou,
Dominou o mundo, mil Cains por um Abel.
Não, não quero de ninguém indulgência,
Pois o que fui senão uma forma de exemplo
Para toda a raça?
Foi pior, antes eu não tivesse existido,
Por causa do meu destino existem
Hoje milhões de destinos iguais
E o que sou, lembrança do mal,
Retrato atual do homem sem alma?
Porque não fui Davi, Gabriel, Salomão??
Mas já que me foi dado esse destino,
deixa-me cumprir o papel de induzir Cains!!...
__Cala Caim!!(diz-lhe Eva).
__Deixa-o falar Eva!!... (fala outra voz)
___???
___???

11

...Caim, dei-lhe como a todos dois caminhos.
Não há quem te tenha morto uma vez,
Que não tenha por sete vezes sido morto.
Toma o terceiro testamento. Se quiserdes voltar
Há tempo, mas não perturbes mais Eva
Com tua voz tão rouca.
Faz mais de um século que Eva está louca.

12

CONTOS SEM FADAS

A gente se vê mas não se olha
E fica trocando as bolas
Imaginando ser melhor,ou pior.
A gente arruma o cabelo
Passa perfume, e, o espelho
Mostra o que não é nós
A gente então sai satisfeito
Imaginando estar perfeito
Pra enganar nosso algoz
Depois, a gente volta
Pra cozinha
Finge haver vencido
E continuamos a ser nós.
Pela manhã
Um outro desencanto
O sapato está no canto
Pronto pra nos machucar
Viajamos na mesma abóbora
Que felizmente existe
Para ao trabalho nos levar!

13

CRER

Se alguém lhe sorrir
Sem motivo algum
De um jeitinho
De sorrir também:
Quem prometeu
Que retorna um dia,
Tenha certeza
Que um dia vem.
Se em um olhar
Você sentir um pedido
De atenção,
De nada custa esticar
A mão.
A gente desarma o peito,
Procura fazer o bem
Deixa tudo preparado
Na certeza que Ele vem.
A gente acaba com a guerra
A gente divide a terra
E vai ser feliz também.

14

CRISTO

Se a gente elevar o pensamento
A gente encontra Ele;
Se a gente fixar o amor
No próximo,
A gente encontra Ele;
Se a gente se entregar ao real
Sentido da vida,
A gente encontra Ele;
Se a gente respeitar
A dor alheia,
A gente encontra ele;
Se a gente respeitar a gente
Mesmo,
A gente encontra Ele;
Se a gente olhar pra dentro
Da gente mesmo,
A gente descobre que a gente
É Ele.


15

ELES

Eles investem em conhecer
O imponderável
E vão a marte
Deixam a morte chegar
Antes da cesta básica
Eles
Assistem pela televisão
Um oriente semimorto
As crianças sem infância
Cheiram a morte pela rua,
Eles pagam em prestação
Seu turismo para a lua
Eles
Nos vendem sonhos
Em projetos sociais
Tiram a venda da justiça,
Sonham com seu paraíso,
Sem ser éden, mas suíça
Um paraíso fiscal.

16

Eles dizem amar a deus
Que deus só por eles é
E constroem feito templos
Supermercados da fé
Brincam nos laboratórios
Clonando projetos imortais
Quase que nos fazem crer
Que não somos normais.

17

EXISTINDO

Sou vizinho do século vinte
Na esquina da minha rua
Mora o descaso.
A ansiedade dos meus vizinhos
Expulsou a esperança
E gradeou suas portas.
Crianças “brincam” de adultos,
Estranhos cigarros nas mãos
Aqui, ali, um treino para o futuro,
Uma queixa, um esquecimento.
Os adultos da minha rua
Brincam de criança,
Trabalham na rua e chegam
Na hora para a novela das sete.
Na minha rua brinco o carnaval,
Concorro com a fantasia da ilusão
Pra não descrer da minha rua.

18

FESTA DIÁRIA

A cada copo um colorido
A mais penetra e corta sua sensatez
Um anjo canta
E a canção é triste.

Sua vontade valseando vai
Por entre outras que falseiam o par,
Vai compassando até que não resiste
Dois anjos cantam
E a canção é triste.

Nem o cansaço o detêm na dança
Não que não queira pois a dança cansa
Pois só respira quando está dançando.
Contra suas pernas a vontade insiste:
Mil anjos cantam
E a canção é triste.

19

 

E se sorri durante a noite larga
Quando uma outra força lhe coiceia a alma,
Vê-se no espelho e de sorrir desiste:
Um milhão de anjos cantam
E a canção é triste.

Quando acorda no final da festa
Quer suicidar-se com cacos de vidro
A sua mente lhe desmente a tese
De agregação que no salão persiste:
Todo céu canta
E a canção é triste.

20

INDAGAÇÃO

Os homens da Africa
Tem duas pernas
Como nós, iguais aos da Russia
Que possuem dois braços
E como os da ásia
Pensam, sofrem
Tal qual os dos estados unidos
Que também amam.
Todos em comum são pré dispostos
A felicidade. Podem não parecerem
Iguais, mas são.
Todos possuem como nós
Um grupo de homens
Que sorriem seus sorrisos
E decidem seus passos,
não entendo por que
Não fazem o mundo sorrir.

21

LA PLAZA DE MAYO

As rosas de maio
Jamais morrerão.
São morenas,
Cor da dor.
Exalam um misto
De desespero
E lá da praça
Aromatizam o mundo.
As rosas de mayo
Dificilmente fenecerão,
Apesar de haverem podado,
Violentado suas raízes
E derramado suas seivas
As rosas de mayo
Dificilmente adormecerão
Apesar das insensíveis mãos
Dos que só sabem
Esmagar flores.

22

LIMITES

O infinito é mais que um espaço,
Um lugar,
Parece mais um tempo,
Uma fração,
Um micro, onde por certo
Se encontram os olhos
De deus.
O infinito tem fronteiras,
Parece ter, justamente
Na divisa é que a angústia
Da impotência nos impõe
A ter consciência do nosso tamanho.

23

MUTAÇÃO

Na minha rua mora
Um homem amargo
Das paredes da casa
Do homem amargo
Solidão musgos e limos.
no quintal do homem amargo
Não tem um gato, um cachorro
Sequer uma galinha
Que pudesse comer o cheiro verde
Ou o centro que planto.
Já tentei modificar o homem amargo
Com filosofia, poesia… Não consegui
Modificar o homem amargo
Mas seu vizinho já anda se queixando
De amargura.

24

NÓS

Mutuários eternos do viver
Por diferentes estradas caminhamos
Lépidos, velozes se arrastando,
Cada com um ideal a perseguir,
Quase sempre esbarramos
Nas passadas e na ânsia
De ficar melhor na estrada,
Uns aos outros costumamos
Nos ferir.
Se, por certo nos sentássemos
Um dia, e, honestamente
Contássemos os sofrimentos,
As dores ganhas durante
A caminhada
Se um desse o açúcar
Outro desse o sal,
Um a experiência, outro a ciência,
Outro desse a calma,

25

 

descobriríamos
Que o que a gente sempre buscou,
Seria só o momento, este momento
De uma alma se entregando
A outra alma.

26

CANÇÃO DE PESAR PELO PODER DO HOMEM NO PODER

Que direito é esse que a sí toma o homem,
Rei, ministro, presidente, chefe de nação
De, em nome de interesses vários,
Dispor da vida do seu próprio irmão ?

Que direito é esse de decisão tamanha
Que de sangue as nações se banham
Por interesses e intenções estranhas
A liberdade, paz que tem direito o homem

Que direito é esse que institui o horror
E o desespero de tantas famílias?
Que direito é esse que de sangue banha
a terra, Oprime, humilha faz o homem fera.
Maldito o homem que inventou a guerra.

27

Lavrar não ódio mas a própria gleba
Nos orçamentos de grandes nações
É um pedaço, uma fração de verbas
Que só se presta a fabricar canhões.

Mas que direito tira o direito
Da liberdade de poder viver
Do ser humano que abrevia a estrada
Sem mesmo ele entender por que?

Que argumento justifica o ato
Que desata a atra e sombria morte
A imperar no reino da inocência
Dos que sucumbem a revel da sorte.

Que lapiseira se presta assinar óbitos
Sem ter remorsos e de jeito banal
Talvez a mesma que a rendição lhe force
A ver a vida retornar normal.

28

Será que quem nos manda a guerra
Queira provar que é bem capaz,
Tentando mostrar depois pra gente
Que através da guerra objetiva a paz.

Que direito é esse que esses homens tem
Determinando destinos e ditar as preces
Nos mandando odiar a outros
A quem a gente nem sequer conhece ?

Que direito, força possuem esses homens
De professar e marcar nossas homilias
Desagregando e instituindo o luto como
Simbolo, marco da própria família.

Maldito, maldito cada homem
Que se associa nessa festa negra
Que a humanidade só transmite o mal
Querendo que se compreenda
Ser seu objetivo justo e natural.

29

Deus, senhor que em sete dias
Formou-nos todos, a humanidade
Extingue a força que esses homens tem,
Devolve ao homem sua liberdade

De viver mesmo morrendo aos poucos
Para que amanhã a paz seja eterna
E não tenhamos que amaldiçoar os homens
Que um dia hão de destruir a terra.

30

ÓTICA

O homem bom
É uma invenção da ironia.
Não existe, existiu.
Deixou lembranças
Do seu comportamento.
Lembro, chamavam-no jesus,
Nasceu em Nazaré.
Era um homem bom.
Não sonhava justiça, era justo.
Em Assis nasceu francisco e dele
Se diz o homem que era.
O homem bom não existe, existiu,
Igual José que ontem faleceu,
meu vizinho...
Não havíamos descobertos
Quão sensível e humano era.
Que pena ter morrido ontem.
Quase conheci um homem bom,
Pena que hoje já não exista.

31

PERCURSO

A vida, efêmera procissão de cores,
Vai desfilando paulatinamente
Como páginas de um livro que
Depois de lido há de ficar silente.
Por quantas vezes a pensar ficamos
Sobre o porque da gente existir
E quando se aproxima o final de tudo
A gente luta para ficar aqui

Ter e poder são os verbos mais usados
Como se fossem a base da vida
E a convivência em torno desses verbos
Dificulta a noção da lida

E o tempo passa e nós passamos juntos
Sem perceber o que ele nos faz
Se conquistamos um pouco das coisas
Por qualquer coisa nós queremos mais

32

Nesse perlustre que aqui encetamos
Sair-se bem é só o que queremos
E a própria vida há de zombar de nós
Que pra existir quase sempre morremos

E assim vamos percorrendo a vida
A tropeçar nas próprias ações
E quando chegam os cabelos brancos
Nos lembramos das religiões

O temor então da incerteza aflige
É grande o medo de envelhecer
E só então é que se descobre
Que a gente morre sem saber viver.

33

PEREGRINAÇÃO

Apesar da perda da safra,
João mantém esperança
Na roça do ano que vem.
Apesar das diárias no sábado,
O operário mantém esperanças
Nas obras do ano que vem.
Apesar da morte do filho agora
A mãe tem esperanças
Nos filhos que vem.
Apesar de saber que nada deu carto
Para o povo este ano,
Eles tem certeza da acomodação
Deste povo no ano que vem.

34

CATEQUESE DOS CORRUPTOS

Essas brigas tolas entre cristãos
Que se perdem em discussões banais
Nada acrescem aos nossos corações
Só alegram ao pobre satanás,
Esse verme abstrato que criamos.
Para impor medo aos tolos e aos rivais
E nos fazem mais tolos,mais ingênuos
Que os mais indefesos animais

Todo mal ou bem que na vida aparece
Pela nossa própria mão foi construído
E as nossa culpas a gente esquece
Passa colocar culpa no destino
Quando não se tem mais a quem culpar
Pelos erros que a gente cometeu
Se ergue os olhos pra cima e se pergunta:
O que foi que te fiz senhor meu Deus?

35

Não quero uma igreja preocupada
Em acumular imensos tesouros
A riqueza do homem não é ouro
Que ofusca e incentiva todo risco
O exemplo está em são francisco
Que despido de toda vaidade
Fez-se símbolo de amor e caridade
Nos exemplos do Senhor Jesus cristo

Não adianta entrar em qualquer templo
Com o corpo coberto em melhor linho
Se não viu a pobreza do vizinho
Nem consegue respeitar o sofrimento
Se não olha a mão estendida
De quem busca em você o seu alento
Se não respeitar os 10 mandamentos
Por medo de não querer correr riscos

36

Tenho medo dos monstros que só usam
Da pureza dos homens na verdade
Que dos seus limites só abusam
Desvirtuando o bem e a caridade
Quem engana assim covardemente
Com certeza não sabe quem é deus
No juízo final e penitente
Dos seus atos ruins de fariseus

Quem se deixa enganar por essas seitas
Paga o preço por que estúpido é
Não sabe quem é deus, o que é fé
E procura a si mesmo enganar
Só a maldade do homem impõe o risco
De a ignorância humana aproveitar
Os milagres que fez o senhor cristo
Foi de graça, ninguém teve o que pagar

37

Eu já vi na porta de uma igreja
Se cobrar o milagre prometido
Fui para perto para ter certeza
Descobri que é coisa de bandido
Do diabo vestido de esperteza
Que precisa lembrar do antigo tempo
Quando jesus resolveu virar a mesa
Com o chicote açoitando pelo templo.

Nenhum ser é o dono da verdade
A palavra de deus é a ciência
O homem tem que ter essa presença
Viver dentro dessa realidade.
Quem tentar vender conveniência
Usando o nome de deus em falsidade
Enfrentará o dia da consciência
Avaliado na balança da maldade

38

Quem usa de enganar seus semelhantes
Com toda certeza não tem fé
Não acredita na vida após a morte
Morte e vida pra eles tudo é,

As pessoas são números apenas
Que usam para aumentar seus ganhos
Alimentando seus sonhos de mecenas
Usando a ignorância do rebanho

Eles tiram o sustento de seus filhos,
Dividem seu suor, seus poucos ganhos
Vocês negam conforto aos que amam,
Eles enchem os seus templos de brilho.
Por não crer, não temem a mão de Deus
Que por certo um dia Ele verá
Quando sobre seus pescoços como pêndulo
A sentença divina descerá.

39

Sua vida porém já foi usada
Tudo o que você ganhou dignamente
Perdeu-se nas mãos destes doentes
Só te resta mesmo lamentar
Colocar os joelhos no chão frio
E finalmente com Deus conversar
Pedir o perdão do arrependido
E na fé outra vez recomeçar.

40

RURALISTA

Pássaro triste de asas podadas
Soubesses da estrada
Que passa por ti
Havias a tempo
Criado raízes nos outros
Que vivem,por e de causas afim.
Pássaro triste que a sorte consome
Nem mesmo teu nome
O tempo perdura
Se ao menos teus sonhos
Te desse raiz
E apesar das fraturas fosses feliz.
Não fosse um vulto
Na beira da estrada
Com asas podadas esperando morrer,
Não te privarias de tentar conhecer
O que a própria vida insiste
Em dizer: não existem sub pássaro;
Não existem sub voos. Pássaro
Triste, tenta voar.

41

SONATA DO HOMEM QUE DESPERTA

José vendeu a rês, única.
Comprou camisa, sapatos,
Um par de calças.
Aposentou a enxada,
Foi para a estrada
E entrou no ônibus.
José construiu casas,
Não pra ele, pra cidade,
Pintou, serrou rolou nas ruas
Fez da sua fé uma bandeira crua.
José passou anos
Percorrendo a vida,
Em outro ônibus encontrou
Saída.
José passou pela mesma estrada
Pesou, mediu todos os desenganos
Pegou na enxada e aposentou
Os sonhos.

42

SONHO E SOFRO

Sonho, sofro e me permito sonhar
Enquanto zombam dos sonhos,
Fazem pouco do amor
Se aperfeiçoam em zombar.

Sonho, apesar da mão assassina,
Cuja mãe, em lágrimas, ensina
O dom de perdoar

Sofro e sonho,
sonho quando vejo famílias inteiras
No lixo, fuçando igual a bicho
Pra dos restos dos outros se alimentar;
Sonho e sofro
Quando essas famílias convivendo em casa
Transformados como inimigos vivem a se tratar

43

Quando sinto em muitas cidades
Nossas autoridades tentar disfarçar,
Demonstrando o que não pretendem e quando
Assumem o poder os seus atos mudar;
Quando vejo a indiferença
Se transformando em doenças
E aos homens dominar, transferindo aos outros
Sua parte na lida, sem ligar para as vidas
Que poderiam salvar.
Mas existem momentos que só me permito sonhar,
Quando descubro que ainda
Se pode tudo transformar, quando penso em meus filhos
E sinto o forte brilho dos que amo
A me olhar.
Sonho

44

Quando entendo e sei que muitos sorriso
Existem, sinceros apesar de tristes
Que se permitem como eu sonhar;
Sonho, quando os vejo sorrir, erguer os olhos
Aos céus e pedir para Deus escutar;
Sonho, pois o sonho é objeto de transformação,
E, saber que o sonho sonhado em conjunto
Deixa de ser apenas ilusão e se transforma em certeza
Quando nossa consciência diz que basta
Apenas com sinceridade unir nossas mãos.
Sonho!

45

SONHO FICÇÃO

Quando o martelo, a foice
Ou mesmo o “tio” Sam
Apertar o botão,
Não será um cogumelo
Mas um lírio tão branco
Quanto as esperanças das mães
Que se estampará nos céus.
Na terra o som de música sertaneja
De qualquer país iniciará o duelo.
Batalha corpo a corpo.
Revólveres, metralhadoras estarão
Superados. Nas mãos
Homens levarão canetas
E mulheres flores.
Jasmineiros não cercarão quintais,
Perfumarão vizinhos. Juízes obitarão
De tédio.não mais se clamará por cristo,
Ele será nosso vizinho, não mais pregará,
Não mais será pregado.

46

SUB REPASSE

Vendem-se duas bombas
Com capacidade
Para cem mil mortes cada.
Vende-se um estojo
De doenças atômicas,
Um aparelho de morte instantânea,
Três canhões modernos
Semi usados.
Centena de milhares
De projeteis eficazes,
Moléstias de todos os tipos.
Vende-se tudo isso barato
Ou troca-se por apenas
Um centímetro de poesia, mesmo usada.

47

TENTATIVA

Dizem que cristo
Na montanha um dia,
Dias depois do sermão que fez,
Cabisbaixo pensava na sorte
Que dera a cada um dos filhos seus.
Ergueu os olhos ao céu e a seu pai,
Pediu um só destino para toda raça,
Que sofressem morressem igual,
Tudo servido em uma mesma taça.
Deus perguntou-lhe: “serão as dores
Boas companheiras que todo um povo
Possa carregar, ou, dar-se-á dor a quem merece,
E a quem não merece será justo dar ?”.
Lamentar pra que se o próprio tempo existe

48

Pra separar o que é alegre ou triste
Nos ensinando o que é bem e mal;
Lamentar pra que se a natureza impera
Separando o que é paz e guerra,
Desde que o homem que é barro e terra,
Decida-se cativo ou não do seu ser escravo
Basta entender que o bem superior
Deixa a vida na opção moral,
Que cada um por próprio destemor
Escolha entre alegria ou dor.
Que o próprio ego seja o medidor maior
De tudo que o próprio deus legou,
Que seja o homem sua própria sentença
Optando pela própria consciência o
O seu viver entre o ódio e o amor.

49

TORNEIO

O botafogo perdeu
Para o vasco no domingo
E a criança chora
Na segunda feira
A galinha morre no domingo
E a criança chora
Na segunda feira
A cachaça invade o domingo
E a criança chora
Na segunda feira
A criança adoece no sábado
A criança morre no domingo
E o remédio só chega
Na segunda feira.

50

TUDO BEM

Tudo bem
Apesar do exposto
Tão claro no rosto
Na frente da gente.
Tudo bem

Apesar do silencio frio
Que a todos vestiu,
Apesar da peleja, desleal
E grotesca que o homem
Perdeu.

Tudo bem Apesar da porfia
Dos tão longos dias,
Do pai, da família,
Do caco do prato
Quase sempre vazio.

51

Tudo bem
Apesar da escola
Agora sacola de porta
De igreja, apesar da pureza
Da ignorância eleita e amada
Pela submissão.

Tudo bem
Apesar das eternas promessas
Que não se ousam cobrar,
Do medo do homem
Que não quer se mostrar
Para gritar sua fome
Porque tem família
Para sustentar.
Tudo bem

52

CONFLITOS

Quando dei por mim
Já tinha dezesseis
E Tinha que votar
Pela primeira vez
E todos me cobravam
A responsabilidade
Mas eu só conhecia
As intrigas de reportagens
Também já me falavam
Tinha que ser senhor
Mas apenas me cobravam
Ninguém me explicou
Como controlar
Toda vitamina e até como
Me livrar do assédio das meninas.
Claro que eu sei que o caminho
É envelhecer, mas sei
Que é bem melhor
Deixar acontecer.

53

Meu coração é puro
Sem querer ser esperto
Pois no final de tudo
Sei que tudo vai dar certo.

54

REALIDADE

Quero uma passagem
Para o interior
A vida que vim buscar
Não tem muito valor
Nem mesmo sei se é vida
O que se vive aqui
A morte anda fardada
Ou civil na rua
Na esquina sempre o corpo
De uma pessoa nua
Que talvez não tenha
Tido tempo de voltar

Quero a liberdade
De voltar pra casa
Mesmo sendo atrás das grades
E a quem amo abraçar
Bom seria se pudesse
Ter certeza que pudesse

55

Ir ficando por aqui
E quem sabe alguma coisa
Com tua ajuda mudar
Porque fugir não faz parte de mim
Embora tenha o direto de me assustar.

56

CERTEZA

Se alguém lhe sorrir
Sem motivo algum
De um jeitinho
De sorrir também:
Quem prometeu
Que retorna um dia,
Tenha certeza
Que um dia vem.
Se em um olhar
Você sentir um pedido
De atenção,
De nada custa esticar
A mão.
A gente desarma o peito,
Procura fazer o bem
Deixa tudo preparado
Na certeza que Ele vem.
A gente acaba com a guerra
A gente paraísa a terra
E vai ser feliz também

57

ACREDITAR É PRECISO

Não importa que as flores murchem,
Importa, que depois delas outras virão
Das suas sementes
Importa regar as esperanças
Importa adubar os sonhos
Não se sonha por sonhar
Sonha-se por crer que um dia
O sonho se fará real
Vale sonhar
Principalmente quando sonhamos
Realizar os sonhos de outros

58

EXISTÊNCIA

Tempo, esse moleque brincalhão
Que não liga pra emoção
Vai pintando os meus cabelos
Parece até que cada fio
Vai puxando uma lembrança
Desde os tempos de criança
Ao último momento acontecido
Essa mexa bem em cima
Faz minha alma soltar ais
São lembranças do meu pai
Minha mãe e meus irmãos
Essa mecha escondida
Que não quer se mostrar não
Guardam lembranças de amores
Que andaram em meu coração
Para evitar que corram lágrimas
Dos meus olhares profundos
Pensei rapar a cabeça
Como a querer fugir do mundo

59

Qual o que
Me aquieto um pouco
Ruminando a minha calma,
Meus cabelos só refletem
O que trago dentro da alma.
Como a querer fugir do mundo
Qual o que
Me aquieto um pouco
Ruminando a minha calma,
Meus cabelos só refletem
O que trago dentro da alma.

60

PEDRO, PEDRA!

Um desses homens que não acreditam
Em destino
E faz seu próprio caminho
Com a vida a pelejar
Desde criança em um nordeste tão carente
Pega a estrada e sai em frente
Procurando seu lugar
De tantas lutas, tantas dores, desatinos
Vai montar seu próprio ninho
E outra vida iniciar.
A sua carga de cultura tão pequena
Faz a dor ser mais amena se permitindo sonhar.
Um dia desses, sem que a gente se dê
Conta,
Ele mesmo paga a conta e assim como
Veio a vida, vai.
E só depois quando a gente se procura
Pra assumir o caminhar, se atravessa amarguras

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E da lembrança não sai, aquela imagem singela
Daquele caboclo forte que um dia
Tivemos a sorte
De chamá-lo de Papai!

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RIBALTA

A vida, enorme feira
Tipo quermesse, festejo
Palcos espalhados em redor,
Em cada palco show,
Em cada show um estilo:
Clássico onde a aparência
Se faz luxo, disfarçando a dor:
Comédia, onde todos os espetáculos
Se encaminham pelas mãos de seus autores
Para os desfechos dos sorrisos amarelos
Dos que pensam entender o que escrevem;
Drama, esse o palco dos que pagam para
Ensaiar suas próprias dores
Com a conformação dos puros,
Admitem saber de tudo porque
Participam
Com todos, na verdade, são coadjuvantes
Das suas próprias desgraças

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A MÚSICA

É fogo que arde
Por dentro
Com uma potencia
De mil megatons
Coloca plutônio nas veias
Faz o corpo vibrar
Nas ondas do som
Distila na pele o suor
Contraria lei física
Que diz dois corpos
Não ocupam um espaço só
O corpo vai saltitando
No piscar de luzes
Os passos marcando
E tudo se perde de vista
E só existe no ar a força de um refrão
Que diz que a música é o divisor
Da alegria e da dor
Do frio do calor
Da razão e da emoção

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